quinta-feira, 6 de agosto de 2009

VIVA LA VIDA


Uma palavra vale um milésimo de uma imagem. Embasbacar-me deixou de ser uma opção. De certa forma , estou cego. Vivencio o tempo por meio de uma série de imagens, que conheço desde sempre. Mas é exatamente esse “desde sempre” que me assombra. Como um gato de Cheshire, ele dissipa os vazios vigentes e sorri para dentro. Aquilo que eu chamaria de entorno imediato praticamente desapareceu. Não tenho lugar. Nem pés . Perdi minha vaga noção de membros. Sinto as pernas como se fossem achas de lenhas dispostas para uma fogueira. Lembro-me de sonhar que segurava o coração do outro por um momento . Vivenciei a pulsação de outro ser. Daí, tudo cessou e eu dei o coração a um animal faminto. As sensações de um pujante vigor cessaram. Não tenho boca, nem grito, nem voz interior. Apenas escuto um som imaginário que eu eventualmente possa emitir. Sou supersônico e alienígena. Tenho a sensação de ser uma fuselagem. Estarei caminhando? Sentado em uma cadeira? Matando? Comendo? Será que não poderia ser qualquer dessas coisas – qualquer uma e todas elas juntas? Onde estou? Não consigo me lembrar espontaneamente. A descrição possível é de algo sagrado , temendo ser algo totalmente diverso. Algumas partes me voltam, não exatamente como antes, mas a conexão é certa. Algumas chaves caíram – foi isso. A geração de recursos está por perto, ela ocorre ao alcance de minhas mãos . Estou sintetizado. Um pensamento onipresente me alerta para a possibilidade aterrorizante : são palavras, apenas , que separam as coisas. Sinto-me abandonado pelo real, deixando pra trás o que sobrou. Indo, vejo-me ir. Tudo muda de velocidade, recolhendo-se em si mesmo. O efeito é fascinante. O movimento me desconcerta. Estou paralisado. A espera aguarda o que sobrar. Faz exatamente o que diz. Sem dúvida. Sem perguntas. A circunstância faz uma pausa. Coisas se vão. Se eu for, todo o mais me seguirá, eu sei. É sabido. Não há nada a ser deixado para trás. Nada. A diferença existe apenas no som, em uma parede de som. Poderei atravessá-la? Poderei levar isto a diante? Onde está agora e onde reside? De que se alimenta? Porque fica tão instável? Nada se aproxima de sua velocidade. É algo exterior. Bem de fora. Não pensei nisso. Não sou isso. Não sou responsável por isso. Não foi cogitado. Não tem relação com o pensamento.Trata-se daquele orifício pelo qual tudo deve passar. Estou indo agora, antes que venha. Saberei quando virá? Sinalizará ao se aproximar? Haverá um momento de reconhecimento? Será então que me reconhecerei nele? Estarei simplesmente chamando minha própria atenção? Qual é a questão? Está sempre aqui, de novo e de novo. Espera sem páthos. Esperar é humano, esta questão quer me mostrar algo não – humano. Quer me fazer ajoelhar. Quer me fazer orar, me fazer ver através da visão, quer que eu aja como conhecimento. Quer reconhecimento. Quer que eu esteja totalmente alerta. Se enfurna, explode e recomeça no plural------Pontos. Células.
Gary Hill - 1996

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